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quinta-feira, 4 de junho de 2009

Lenda de D.Sapo

Era uma vez um fidalgo chamado D.Florentim Barreto, a quem o povo alcunhara de D.Sapo, senhor de um solar torreado e de vastas terras de lavoira, situadas na freguesia de Cardielos, cerca da Viana e das águas do Lima.Todos os seus servidores o odiavam, pois exercia sobre eles um poder injusto e cruel.Mas, sobretudo, o que mais lhe alimentava o ódio era o direito a que D.Sapo se arrogava de passar, com as noivas dos seus criados, a primeira noite de núpcias.Obrigado a submeter-se a costume tão infame, qualquer novo casal constituído sofria, todavia, em silêncio, a luxúria de D.Florentim Barreto, sem ter coragem de se revoltar contra ela, temerosa da miséria e mesmo da morte.Uma ocasião, um jovem empregado seu, vendo próximo o casamento e não podendo suportar que a sua amada fosse submetida à violência do amo, reuniu os seus companheiros e convenceu-os, sobretudo os mais velhos e respeitáveis, a demandar a Corte, denunciando a El-Rei a vilania do fidalgo e pedindo, para ele, um castigo severo.Eles sabiam que D.Florentim tinha grandes amigos influentes na Corte, capazes de defender, perante o soberano, a sua vida e os seus hábitos, jurando-o inocento.Por isso usaram de manha.Aos pés do rei, rogaram-lhe a mercê de se libertarem, pela morte, de um sapo que, em suas terras, roubava a donzelia às raparigas e tiranizava todo o povo da região.Espantou-se o rei com pedido tão singular e, sorrindo da ingenuidade das gentes de Cardielos, concordou que matassem, à sacholada, sapo tão daninho.Regressaram os enviados deveres contentes com a decisão real e logo convocaram os braços válidos da freguesia para, munidos de sacholas, assaltarem o solar e darem morte rápida a D.Sapo.D.Florentim foi apanhado de surpresa nos seus prazeres favoritos e, com um grito, tombou, inerte e crivado de golpes, no chão do quarto onde praticara tanto crime horrendo.Pôde, assim, o jovem noivo, esperto e ousado, libertar a pureza da sua noiva dos desejos repugnantes de D.Sapo.E libertar, igualmente, e de vez, todo o povo de Cardielos das garras do fidalgo.Mas os amigos de D.Florentim Barreto, ao saberem do atrevimento da justiça popular, logo correram à Corte, a reclamar, de El-Rei, a condenação dos prevaricadores.Zangou-se grandemente o soberano com esta rebelião sangrenta e ordenou que viesse à sua presença quem cometera tão grave desacato.Então, os considerados culpados replicaram, perante ele, que haviam recebido, da boca do próprio rei, a ordem de morte de D.Sapo, pois só por este nome conheciam D.Florentim.E que os motivos das suas queixas eram verdadeiros.Ouviu El-Rei, ponderadamente, os argumentos das gentes de Cardielos.E disse-lhes:- Ide em paz para as vossas terras.O dito dito. Palavra de Rei não volta atrás.Feliz com o desenlace, o povo tratou de destruir a torre e o solar de D.Florentim Barreto, para que não restasse memória, nem do fidalgo nem dos seus actos condenáveis.Restou, porém, para os vindouros, a curiosidade da história aqui narrada.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Lenda da Serra da Arga

Era uma vez um rei de nome Evígio que tinha uma única filha, chamada Eulália. Ela era de uma beleza rara, prometida pelo rei em casamento ao corajoso Remismundo. Mas a princesa amava o jovem Egica em extremo. Eulália resolveu então fugir com o seu amado para bem longe do seu território. No entanto, o rei sabendo da fuga mandou logo um exército poderosíssimo à procura deles. Os jovens apaixonados fugiam a cavalo para uma alta serra, de nome Medúlio, onde residia um velho amigo de Egica num Mosteiro Máximo. Na manhã seguinte, a princesa ficou encantada com a beleza daquela serra. Uma plena descontracção ao verem os campos semeados, os rebanhos de ovelhas, imensos pássaros a voar, a água a cair das fontes, uma grande harmonia. A jovem, maravilhada com o que viu, disse: “- Porquê, chamar Medúlio ao esplendor e prosperidade desta serra, e não Agro, como merece?”. O irmão Gondemaro respondeu: “- Razão tendes. Pois toda esta riqueza se deve ao trabalho agrícola, de Sol a Sol, dos nossos bons monges que a cultivam sem fadiga e com muito amor.” Nesse dia deslumbrante, Gondemaro casou os jovens apaixonados e depois estes fugiram para outro reino. Eulália mesmo feliz com o seu amado tinha saudade do pai e da sua pátria. Então, eles voltaram ao castelo onde moravam. Mas havia boas notícias, o rei resolveu perdoar a sua filha e pedir-lhe um neto. A princesa tive o filho e antes de voltar ao Palácio de Evígio, voltou à serra, onde casou, de nome, agora, Serra de Arga, porque o povo era ignorante e, então desfiguraram a palavra Agro para Arga. Permanecendo este nome até aos nossos dias.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Lenda da Mal Degolada

Era uma vez um senhor chamado D. Rui Mendes, natural da Facha.
Fiel, valente, poderoso, generoso, corajoso, bom caçador e cavaleiro. Para além disto, era tão bonito que deixava todas as donzelas encantadas por ele. Depois de uma luta contra os mouros, este cavaleiro deixou de ser visto.
D. Rui trouxera desta luta vitoriosa, uma belíssima moira, de nome Zaida. Eles viviam escondidos na torre de granito, que pertencera ao fidalgo. Zaida amava muito este fidalgo. O amor que ele sentia por ela, por vezes tornava-se doentio, chegando a confessar a Zaida que a matava se ela o traísse.
O cavaleiro queria consagrar o seu amor pelo casamento, então procurou um convento, em Refojos, para o celebrar.
A felicidade entre estes jovens não era completa, pois existia a diferença de fé.
Uma noite, D. Rui não encontrou a belíssima moira. Foi andando para a torre e quando chegou perto ouviu vozes e percebeu serem dela e de um homem. D. Rui doido de ciúmes pegou numa faca e deu-lhe um golpe no pescoço. A moira quase morrera. De repente, o fidalgo reparou que o homem era o santo ermita da Serra de Arga.
O santo ermita olha para a moira e diz-lhe:
- Querias ser cristã, vais sê-lo.
O santo com a conca da mão cheia de água, achegou-se de Zaida e diz-lhe:
- “Maria, eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e…” antes de acabar a bela moira soltou o último suspiro. D. Rui Mendes com os olhos esbugalhados, viu todo isto sem retirar pé.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Lenda do Galgo Preto

Era uma vez um fidalgo, D. Rui de Mendonça, um jovem gracioso e muito estimado na Corte. D. Rui tinha um grande companheiro, El-Rei D. Manuel. E, quando este soberano decidiu ir de peregrinação a Santiago de Compostela na Galiza, levou o fidalgo com ele. Esta romaria passava por Ponte de Lima, uma vila muito linda e graciosa, onde atravessa o rio Lima. Durante esta peregrinação D. Manuel e D. Rui de Mendonça repousaram nesta belíssima terra. Esta vila era recheada de festas e numa delas D. Rui conheceu D. Beatriz de Lima, de descendência Moirama, que recebera o nome de Madalena no baptismo. Por causa de sua mãe ser uma moira de Arzila e uma espécie de bruxa o povo recusava-a, por isso esta jovem de uma bela impressionante ainda continuava solteira. Contudo, todos estes rumores desvantajosos não impediram que D. Rui e D. Beatriz vivessem um grande amor. Os jovens apaixonados fazem projectos de uma vida futura. Entretanto El-Rei termina o seu descanso e tem de continuar viagem e levar consigo D.Rui. Os jovens despediram-se junto do rio Lima e Madalena pediu a D. Rui que lhe jurasse amor eterno. D. Rui preso de encantos por esta jovem, jurou, e ela voltou a pedir que jura-se mas agora pelas águas correntes do Lima. E claro o jovem jurou. Disse-lhe que iria ama-la até que as águas se esgotassem para sempre. No dia seguinte D. Manuel deixou Ponte de Lima e continuou viagem com D. Rui de Mendonça e os seus cavaleiros. Apôs alguns meses soube-se pelo Reino que D. Rui iria casar com uma dama da Corte, esta era uma boa noticia, mas depressa se tornou trágica. No dia da boda, D. Rui, ao entrar para a carruagem que o levaria ao altar, caiu morto! Seguidamente a esta morte, começou a aparecer, nas areias que contornavam o rio Lima, um enorme galgo preto. A vila ficou apavorada e afirma que este galgo é a alma de D. Rui. O jovem esta a ser condenado pela vingança de D. Beatriz, que passará duro castigo, até que as águas do Lima acabe o seu percurso líquido e brando. Até para todo o sempre!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Lenda da Cabração

D. Afonso Henriques encontrava-se no adro da Capela de Nossa Senhora do Azevedo, quando observou uma grande poeirada. O Rei vendo tal poeirada pensou que fosse o seu inimigo, então preparar-se imediatamente para o combate. Um dos aios dirige-se para o Rei e diz: “Cabras são, meu senhor”.
Deste modo esta zona ocupada sobretudo por cabras e pastores passou-se a chamar Cabração.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Lenda da Moira Encantada

Era uma vez a linda moira da serra da Nó. Esta moira era encantadora, enlouquecendo qualquer moço.
Abakir, ambicioso e apaixonado, era o dono de um castelo. Um dia, viu uma pastora formosíssima que logo ficou preso de amores, era a linda moira encantada, filha de Agar. Aproximando-se dela, fez-lhe mil promessas e depois mil ameaças. A jovem recusou-as, então fechou-a na torre e só a soltaria quando ela pedisse perdão e cedesse a ser sua esposa.
O tempo foi passando e a moira, cujo nome era Zuleima, não se arrependera.
O rei cansado de esperar resolve chamar a Zuleima à sua presença e disse-lhe:
- Faço tudo o que tu quiseres.
E ela, respondeu-lhe:
- Ficarei contigo na condição de ser a tua única rainha e de me seres sempre fiel.
O rei, Abakir podia ter muitas mulheres, assim o permitia a sua religião, mas aceitou logo as condições da sua amada, abdicando de todas as outras.
Alguns anos se passaram e este casal era muito feliz.
Entretanto, um numeroso exército de cristãos, ia expulsando os moiros para a Moirama, como a fuga tinha de ser rápida, esconderam as suas riquezas. Algumas mulheres não conseguiram acompanhar os homens, ficando encantadas, a fim de não serem pressas pelos cristãos. Os cristãos tiveram sempre, ao que parece um grande entusiasmo por estas mulheres, apesar da diferença da fé.
O rei e a sua única rainha não saíram do castelo, foi-lhe buscar um velho livro sagrado da sua religião e pôs-se a folheá-lo, lendo, em voz baixa, enquanto estendia a mão sobre a moira.
Na manhã seguinte, quando os cristãos lá chegaram já não havia castelo, nem rei e nem a sua única rainha.
Mas diz-se que, em noites de lua cheia, vagueia pela serra da Nó a linda moira encantada, e que o castelo ficou soterrado nesta serra.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Lenda da Pia de Baptismo

Na antiga Capela de S.João havia uma pia de baptismo. Essa pia terá sido levada para a igreja paroquial, onde todas as crianças que eram baptizadas, ficavam cegas. Dado este acontecimento a pia foi devolvida à Capela de S.João.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Lenda da Pieira de Lobos

Era uma vez um cavaleiro de seu nome D. Afonso Ancemonde. Este cavaleiro era o mais corajoso de todos e deixava todas as donzelas encantadas com a sua beleza. D. Afonso vivia em terras deste concelho, mais precisamente em Refojos, num grande solar acastelado.
Certo dia, este homem foi caçar ursos para o monte da Labruja, onde apareceu-lhe uma alcateia de lobos esfomeados e ferozes. O caçador pegou de imediato no arco e com a flecha fez pontaria, atingindo o chefe do bando entre os olhos. Este animal fugiu rapidamente e desapareceu entre dois altos penedos, acompanhado pelo seu bando.
O cavaleiro partiu numa corrida perigosa. O cavalo, cego de dor e de medo, foi contra a dureza dos penedos e D. Afonso caiu e ficou sem sentidos.
Quando ele voltou a si, encontrava-se numa gruta recoberta de peles de corça. À sua beira estava uma donzela e um lobo com a bondade de um cordeiro. O cavaleiro questionou a donzela, porque não sabia quem ela era e nem o que fazia naquele inexplicável lugar.
Esta formosa donzela explicou-lhe:
Nasceram setes filhas e a última de um casal de nobres, não foi lhe dada uma das seis irmãs como madrinha por esquecimentos dos pais. Condenando-a, assim, a um terrível destino: em todas as luas cheias ela transforma-se em pieira de lobos (pastora de lobos).
Nesse mesmo dia, essa irmã completava o sétimo ano da sua condenação. Conseguiria uma vida normal se o amor de um homem a libertasse desse pesadelo, esse homem era D. Afonso. Só ele lhe poderia dar a felicidade desejada.
O cavaleiro desconfiou da pieira, pensando que ela fosse uma impostora, alguém que lhe ambicionava o nome e a fortuna, inventando uma história só para o seduzir.
Mas a pieira de lobos estava a ser sincera e magoada com a desconfiança de D. Afonso, lançou-lhe uma terrível maldição:
Em todas as noites de lua cheia, ele seria também um lobo com ela.
Depois deste dia de caça, o cavaleiro doou todas as suas terras de Refojos e morreu de uma doença desconhecida.
Quando a Lua Cheia ilumina aquela Serra, qualquer pessoa pode avistar, no espaço de um relâmpago, D. Afonso Ancemonde a cavalo, seguido por uma alcateia, onde esta visão irá permanecer durante muito tempo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Lenda das Unhas do Diabo

Era uma vez um escrivão, natural da vila mais antiga de Portugal, odiado por todos. Um dia, os sinos da vila começaram a tocar a finados pela morte deste escrivão. Esta morte não era lamentada, porque este escrivão era infiel tendo danificado muitas famílias. Ele falsificava documentos importantes e aceitava subornos que guardava numa arca no sótão de sua casa. A sua alma não tinha salvação possível e o povo nem sequer o enterro cristão lhe deram. Apenas os frades franciscanos do Convento de Santo António ofereceram-se para lhe dar um enterro. Mal soaram as baladas da meia-noite, três sonoras argoladas na porta da igreja acordaram toda a vila. Os frades assustados, quando abriram a porta, encontraram um cavaleiro muito alto e magro de olhar penetrante. Ele dirigiu-se à capela onde estava sepultado o escrivão, extraiu o corpo amortalhado e com um murro obrigou-o a vomitar a hóstia que tinha na boca. Este homem era, de facto, o Diabo em pessoa, que veio buscar o escrivão para o Reino das Trevas. Ele saiu por uma das janelas da igreja fazendo um grande estrondo e deixando um cheiro a queimado. Os frades levaram a laje para o adro onde se pode distinguir, bem nítidas, as unhas do Diabo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Lenda do rio Lima

Era uma vez um rio.
Azul, liso, calmo e fértil como tantos outros.
Os romanos, querendo largar o seu território, mandaram um grupo de soldados para esta vila, perturbando assim a monotonia e a paz deste rio, nascido numa serra galega.
Sedentos de sangue e de guerra, este povo, venceu batalhas, construiu estradas, pontes, aquedutos, muralhas guerreiras, templos para os deuses, anfiteatros e arenas. Invadiram tudo. Mas um dia, ao chegar à margem sul deste rio, este exército de soldados, rendidos e deslumbrados com tanta beleza e a limpidez, estacaram e recusaram atravessá-lo. Porquê?
Pois descobriram que este se chamava Lethes, o rio do esquecimento.
Porquê do esquecimento?
Porque se dizia que quando alguém de fora passa o rio, ficava enfeitiçado e esquecia a sua pátria, a sua família e tudo o resto. Até o seu próprio nome.
Contudo, Décio Júnior Bruto, então chefe supremo, disse que quem não atravessa-se o rio teria como destino a prisão e a morte.
Os soldados preferiram desobedecer ao seu supremo, do que atravessar o rio e esquecerem-se de tudo.
Então Décio decide avançar, lentamente, pelas águas feiticeiras. Atingiu o areal da margem direita e, um a um, disse o nome de cada um dos seus subordinados.
Convenceu os soldados que este não era o rio do esquecimento, mas sim da lembrança e do encanto.
Pois encantava e ficava na memória de todos aqueles que o viam.